Dredd Vs. Juiz Dredd

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No fim desse ano tive a oportunidade de assistir  os dois filmes já lançados do famoso anti-herói. Como um fã do personagem não foi nenhuma surpresa a decepção com a película. Muito pelo contrário, é algo bem recorrente quando estamos falando da relação de fãs com as adaptações cinematográficas de quadrinhos. Apesar de tudo, os dois são filmes com pontos positivos e negativos. Sem sombra de dúvidas, o filme mais atual (de 2012) consegue marcar mais pontos a seu favor do que o primeiro (de 1995).

Contudo, antes de falarmos dos filmes, precisamos fazer uma breve introdução ao universo de Juiz Dredd. Sem que o leitor compreenda isso, será realmente complicado justificar minhas críticas.

Lançado em 1977 pela  revista britânica de ficção científica 2000 A.D, a história de Dredd se passa em um tempo em que os Estados Unidos da América se tornaram um deserto após uma guerra nuclear. Existe apenas mais uma cidade (cercada por um muro) no país todo chamada Mega City One. Fora dos limites da cidade, no deserto radioativo, impera o caos. Habitado pelos mutantes, o deserto é uma terra sem lei e amaldiçoada pela desordem. Mega City One, por outro lado, possui uma lei e uma lei bem rígida, diga-se de passagem. Isso não significa que seja uma cidade pacífica. Muito pelo contrário é o típico cenário cyberpunk dos anos 80 ao qual estamos acostumados. Basicamente Mega City One é a verdadeira cidade do pecado.

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O sistema de justiça em Mega City One é coordenado pelos famosos Juízes. Os Juízes são a união do poder Legislativo e do Executivo em uma pessoa apenas. Eles têm o poder para julgar, sentenciar e executar as penas em seus prisioneiros de acordo com a Lei. Então, por exemplo, se alguém tenta um assalto a mão armada, o Juiz tem a capacidade de já emitir um mandato de prisão sem as formalidades de um julgamento com direito a advogado etc. O Juiz é a Lei. Se a pena, segundo a Lei, fosse de morte, o Juiz teria o dever de executá-lo ali mesmo. Assim funcionam as coisas.

Dredd é um Juiz que nasceu em um projeto de manipulação genética. Ele foi feito para ser o Juiz perfeito e é tratado como uma verdadeira lenda em Mega City One. O laboratório que o criou garantiu que ele não tivesse sentimentos para que ele  fosse o mais imparcial o possível. Então, quando você lê o personagem, ele é completamente flat. Não esboça uma alteração de humor. A grande crítica do quadrinho é que às vezes Dredd, por não ter sentimentos, faz com que a Lei seja aplicada de maneira injusta. Ele apenas consegue ver a Lei e não as histórias que existem acima da Lei. Brilhantismo é pouco quando estamos falando de Mega City One.

Em resumo, é disso que fala Juiz Dredd.

Em 1995 tivemos o primeiro filme do personagem, estrelando o casca-grossa Sylvester Stallone. Por onde começar para falar desse filme? Para início de conversa temos Rob Schneider integrando o elenco. Isso já bastaria para nos servir de aviso de que o filme não deve ser visto. Contudo, infelizmente temos mais notícias ruins. Além de Rob Schneider, temos várias cenas envolvendo cenários caricatos em Chroma Key. A sensação aos olhos mais atentos é que estamos vendo uma produção de Roberto Bolaños. Um verdadeiro capítulo pós-apocalíptico de Chapolin. Com uma trilha sonora péssima, o filme foi, de um modo geral, rechaçado até pelos fãs mais liberais.

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“Ninguém tem paciência comigooooo!”

Contudo, gostaria de ressaltar o que acho válido no Dredd de Sylvester Stallone. Apesar de nosso amigo ser mais uma personalidade marcante do cinema do que um bom ator, o ponto alto do filme é o próprio Stallone. A personalidade fria e inexpressiva de Dredd se encaixou como uma luva em nosso Rambo. Stallone mal precisou atuar para interpretar Dredd, pois na vida real ele é o próprio Juiz Dredd. Logo, a “atuação” ficou extremamente convincente. Pela primeira vez (que eu me recorde) ser um mau ator fez bem a um personagem. Pouquíssimos atores seriam melhores para o papel.

Em 2012 tivemos o prazer de receber mais uma adaptação do personagem aos cinemas. Esse filme, por sua vez, acerta mais que o de Stallone. Atores melhores, enredo escelente, trilha sonora boa, efeitos especiais dignos de uma grande produção para TV e violência bem próxima da que vemos nos quadrinhos do Juiz. Contudo, ao assistirmos esse segundo filme, vemos que alguns detalhes na arte do cinema são mais importantes do que o entretenimento.

Caso queira assistir uma breve e didática introdução à linguagem cinematográfica antes de continuar, recomendo essa aqui.

No filme de Stalone, apesar de tudo o que ele tem de ruim, temos planos muito mais lineares e lógicos do que nesse de 2012. A maioria dos planos no filme são primeiros ou gerais. Isso é um bálsamo para o fã que deseja ver seu quadrinho nas telas de cinema. Em alguns momentos os planos gerais não tem nem mesmo elementos humanos. Apesar de não permanecerem muito tempo neles (o que pode ser bom) ficamos com aquele gostinho de cinema sessentista. Ponto para Stallone.

Já no filme mais recente temos uma quantidade absurda de planos americanos e primeiríssimos. Isso gera a impressão de baixa produção de cinema uma vez em que poucos cenários são mostrados. O foco da câmera sempre são as pessoas. O perigo disso reside no fato de que estamos falando de um universo riquíssimo de detalhes a serem explorados. O foco sai do conjunto e vai especificamente para os personagens na maior parte do tempo. Na verdade, pode-se dizer que as ambientações são mero plano de fundo para os diálogos humanos. Nesse ponto me considero formalista. O cenário não deve ser um detalhe. Ele tem tudo para dialogar com os demais elementos como atuação, enredo, música etc. Principalmente se estamos falando da escola cyberpunk da ficção-científica. Um equívoco, sem dúvida.

Outra deficiência que noto são as escolhas de ângulos. No filme atual a temos vários irritantes plongees e contra-plongees sem sentido. Isso, mais uma vez, nos dá a impressão de que o cenário não pode ser mostrado em ângulos normais por não ser convincente aos espectadores. Não sou contra angulações ousadas desde que elas façam sentido. Agora me diga, qual o sentido de relatar um tiroteio sob o ângulo abaixo:

Os corpos na escada tomaram a atenção que poderia ser das pessoas que Dredd está fuzilando.

Não existe uma regra do que pode ou não ser feito no cinema. A escolha de ângulos, planos e enquadramentos são personalíssimas ao diretor e sua equipe de fotografia. Contudo, cada caso exige decisões do diretor que determinarão se aquela cena irá preservar seu significado enquanto arte cinematográfica. Por isso chego a conclusão que nós, fãs do personagem Juiz Dredd, ainda somos órfãos de um bom filme. Tanto no de 95 quanto no de 2012 passamos raiva por motivos distintos. Resta a nós esperar que um dia Zack Snyder ou Del Toro inclinem seus olhos para Mega City One.

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