Solaris: Cinema Russo, Scifi e Kant

Screenshot (199)

Há uns anos eu já ouvia falar de Solaris, um filme russo dirigido pelo controverso cineasta Andrei Tarkovsky. Confesso que apesar de sempre vê-lo presente em listas de ficção científica no IMDB e no IO9, tinha alguns preconceitos adquiridos com uma experiência anterior. Em 2011 assisti meu primeiro filme do diretor, “Stalker”, e sendo muito honesto, não estava esperando um cinema tão experimental. Baseado em um romance dos irmãos Strugatsky, “Stalker” foi um dos filmes mais depressivamente experimentais que já assisti. Não foi uma boa experiência e certamente o livro (“Roadside Picnic”) é melhor que a adaptação.

A partir desse dia passei a me interessar um pouco mais pela literatura soviética dentro da ficção científica. Cheguei a ler alguns autores – dentre eles, os Strugatsky -, mas me lembro bem quando me deparei com Stanislaw Lem(1). Já havia ouvido que ele era o autor de Solaris e ao encontrar sua obra digitalizada na internet, decidi arriscar. O livro me chamou muito a atenção pelo silêncio ser um dos personagens(2). Essa semana decidi finalmente assistir a adaptação para a película, de 1972.

Em primeiro lugar, esse é um dos raríssimos casos em que o filme é melhor do que o livro. Um filme praticamente sem música alguma exige um elenco que se entregue de maneira quase doentia aos papéis representados. Destaque para o casal Kris e Hary, interpretados magistral e respectivamente por Donatas Banionis e Natalya Bondarchuk. Interpretações de tirar o fôlego. Emocionante até o fim.

Screenshot (205)

Em segundo lugar o filme propõe a reflexão sobre as consequências de alimentarmos paixões pelo nosso passado. Em alguns momentos vemos Kris entrando em conflito ao amar a réplica da memória de sua falecida esposa. Ao mesmo tempo a réplica vai se tornando cada vez mais humana diante da alma conturbada do marido.  Em seu tratado sobre a beleza(3), o existencialista (e pessimista) Arthur Shopenhauer nos traz uma perspectiva comparativa entre as ideias de Platão e de Kant sobre a objetificação e seus efeitos colaterais no dia a dia do Homem. Segundo Shopenhauer (e eu concordo com ele nesse ponto), a Objetificação Kantiana é o melhor comentário ao amor platônico. Kant nos traz como exemplo o amor que nutrimos pela infância e as coisas da infância (brinquedos, bairro onde morávamos, desenhos animados etc).

Em seu estudo ele nos diz, sem choro nem vela, que não sentimos saudades ou nostalgia do nosso passado. O que sentimos é falta daquilo que o nosso passado é sem nós. Ao termos lembranças do que um dia foi, apenas o lembramos com bons olhos por não sermos agentes ativos nem passivos de tais lembranças. Nossa simpatia pelo passado se deve unicamente ao fato de não o estarmos vivendo no momento. Por conta disso nossas memórias adquirem um tempero bem mais doce do que de fato tiveram quando as vivemos um dia.

Screenshot (198)

Por último, e melhor, está o jogo de câmera proposto por Tarkovsky. Diferente de praticamente tudo o que já vi, seus planos são filmados todos no mesmo take, de maneira direta. Isso faz com que a câmera siga os personagens como um narrador-personagem onipresente e mudo. Isso dá ao filme um tom muito poético e reflexivo, como se os espectadores estivessem assistindo um teatro de cima do palco. A fotografia magnífica é um mero efeito colateral de uma direção brilhante. Fique aqui com a cena inicial e se deleite com a orquestra do silêncio de Andrei Tarkovsky.

Rodapé:

(1) Hoje todos sabemos que Stanislaw Lem era apenas um escritor careca e sorridente, mas na era pré-internet, Phillip K. Dick, em mais um de seus delírios imaginativos, chegou a afirmar que Stanislaw Lem sequer era um indivíduo. Segundo ele, Stanislaw Lem era o nome de um grupo comunista soviético que enviava mensagens secretas ao partido comunista na Europa por meio de mensagens codificadas nos livros de ficção científica.

(2) “O silêncio ser um dos personagens” é algo muito comum dentro da produção artística russa no período soviético. Certamente é resultado do existencialismo e do niilismo que estiveram presentes durante vários anos até depois da queda do muro.

(3) A Metafísica do Belo/Metaphysik des Schonen. SCHOPENHAUER, Arthur. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s