A Grande Ilusão (1937) ou “Porquê você deveria dar uma chance para um filme antigo assim”


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Tenho dedicado os últimos dias a algumas leituras que expandam um pouco mais minha visão de cinema. Uma delas é “As principais teorias do cinema” de Dudley Andrew (1). Estou passando no momento pela Nouvelle Vague. Entre páginas e mais páginas sobre o realismo francês me deparei com o pre-nouvelle Jean Renoir. Ao ler sobre esse verdadeiro gênio do cinema fiquei impressionado com a profundidade  alcançada pela filosofia realista em sua obra. Bastou procurar um pouco para me deparar com o filme “A Grande Ilusão”, datado de 1937.

O filme conta a saga de alguns oficiais franceses feitos cativos em um campo de prisioneiros na Alemanha(2).  Apesar de terem seu direito de ir e vir tolhido pela guerra, eles vivem uma circunstância muito peculiar de amizade com seus algozes. Todos se conhecem de antes da guerra. Pela fatalidade do destino, são colocados em lados opostos, mas ainda assim se tratam com muita cordialidade e pode-se dizer até mesmo com amizade. Todos sabem que estão apenas desempenhando um papel exigido pelos seus postos militares. É resultado de suas decisões pessoais.

Apesar da vida com direito a jantares com os algozes e incentivo ao teatro e às artes, um grupo de oficiais deseja intensamente fugir. Seus planos mirabolantes vão até as últimas consequências. Para eles é melhor passar fome, frio e enfermidades do que comerem caviar dentro de suas prisões. Um verdadeiro tratado à paz, Jean Renoir nos ilustra brilhantemente que uma gaiola de ouro sempre será uma gaiola.

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Meu destaque vai para um momento chave do filme onde dois prisioneiros que conseguiram escapar, encontram abrigo em na casa de uma viúva, no condado de Wittenberg. Pelo fato de um deles ter se ferido na fuga, eles acabam ficando meses a fio e o outro (o que não se feriu) vive o despertar de uma paixão pela viúva e uma relação de paternidade com a filha dela. Em um determinado momento chega o Natal. Os fugitivos preparam um presépio com as frutas e legumes representando os famosos personagens. Dão corda no gramofone e acordam a menina dizendo “Venha, venha, acorde! O menino Jesus nasceu!”. A menina, como quem vai buscar presentes embaixo da árvore, corre para o presépio e agarra o modelo do menino Jesus. A mãe a pergunta o que está fazendo e sua filha responde humildemente que quer comer o menino Jesus (que é feito de legumes, ora pois). Os adultos ali presentes riem de sua inocência e dizem, concluindo a cena, que o menino Jesus não é para se comer.il1

Vejo Jean Renoir nos mostrando duas coisas nessa cena linda de Natal. A primeira é que os horrores da guerra não foram capazes de matar Deus (como Nietzsche gostava de falar) e nem a esperança que os homens depositam Nele. A segunda lição que acredito que o mestre Renoir quis nos mostrar é que a inocência infantil deu àquela menina uma visão mais clara de quem Jesus era. Por meio de uma cena alegórica, Renoir nos mostra que se não formos como os pequeninos jamais teremos o pão-da-vida que é Jesus. Desse pão nos saciaremos e doravante a fome não nos encontrará. A menina viu isso; os adultos não.

(1) As principais teorias do cinema: uma introdução / The Major Film Theories – An Introduction. ANDREW, J.Dudley. — Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

(2) Apenas lembrando que estamos falando da Primeira Guerra Mundial. Logo, não é um campo de concentração nazista, apesar de ser na Alemanha. O nazismo ainda não tinha surgido. Realmente é apenas um campo de prisioneiros de guerra.

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